A silvigênese 

REFERENCIAL TEORICO

A silvigênese, é o conjunto de processos que definem a construção arquitetural de uma floresta, estudos com esta abordagem avaliam aspectos do funcionamento e desenvolvimento de mosaicos florestais. Na análise silvigenica são considerados apenas aspectos arquiteturais das espécies arbóreas. (Hallé et al. 1978;Oldeman 1974a; 1989).

Quando tem início a reiteração desenvolve-se a primeira grande forquilha de uma
árvore, ou seja, é determinado o seu “ponto de inversão morfológica” (PIM) que permanecerá ao longo de todo o seu desenvolvimento e neste ponto a árvore diminui seu crescimento em altura. Unindo-se através de uma linha os PIM das árvores de uma floresta, obtém-se a superfície de inversão morfológica (SIM), que marca a fronteira entre uma área inferior, onde a arquitetura das árvores é determinada principalmente pelo único modelo inicial, e uma área superior, onde a reiteração cada vez mais intensa, produz ramos cada vez menores (Oldeman 1974a; 1978).

Outro aspecto considerado na análise arquitetural ou silvigênica de uma floresta é sua
estratificação. Considerando-se a luminosidade e umidade no interior de uma floresta tropical, duas camadas distintas podem ser reconhecidas: uma com baixa luminosidade e alta umidade e outra com níveis inferiores de umidade e alta luminosidade. A metade da altura de cada árvore corresponde ao ponto de inversão ecológica (PIE) e a metade da altura média de uma floresta corresponde à superfície de inversão ecológica (SIE), excluindo-se as árvores emergentes (Oldeman 1974a).

Arquiteturalmente, as árvores de uma floresta possuem características que permitem separá-las em três grandes grupos:

- as árvores do futuro, aquelas sem reiteração, com tronco monopodial, de copa estreita e que possuem potencial de reiteração e crescimento em altura;
- as árvores do presente, que são aquelas já reiteradas, com tronco simpodial, copa com alto potencial de crescimento e reiteração, e geralmente são as mais altas, que persistem na floresta por longo tempo, devido à capacidade de substituição de partes perdidas;
- árvores do passado são aquelas muito danificadas, decadentes e senescentes ou já mortas em pé. 

A distribuição destes tipos reflete o estado geral da floresta (Lescure 1978; Oldeman 1974a;1978; 1983; 1989; Torquebiau 1986). Ainda, segundo Botrel (2007), a proporção e a distribuição espacial de cada uma destas categorias de árvores fornece um retrato do grau de perturbação de um fragmento florestal.

A cobertura vegetal geralmente apresenta-se em mosaico onde subconjuntos são
reconhecidos na forma de “manchas" de árvores e aberturas do dossel, as “clareiras"
(Oldeman 1992). Esta configuração é interpretada através da teoria da regeneração cíclica ou dos mosaicos de Aubréville (1938), posteriormente revisitada por Whitmore (1984) que reconhece na floresta sua fase madura, fase de clareira e construção (Richards 1996; Whitmore 1984). Na floresta, as árvores do presente, passado e futuro irão constituir isoladamente, ou em conjunto, as manchas do mosaico vegetacional que também incluem as clareiras. Estas manchas, de acordo com o conceito silvigênico, são denominadas ecounidades. Uma ecounidade é, portanto, cada conjunto de árvores e clareiras que encontram-se em um determinado estágio sucessional (Oldeman 1983; Oldeman 1992).

Caracterização do mosaico silvigênico

A análise silvigênica é realizada através do mapeamento das ecounidades pelo método de “interceptação de linhas para inventário das árvores do dossel” (Torquebiau 1986). 
De acordo com esta metodologia, são dispostas linhas paralelas com largura entre elas de 10m, com 50 - 100m de comprimento.

Todas as árvores cujas copas interceptarem tais linhas, são anotadas suas medidas da altura total (Ht), altura do fuste (Hf), diâmetro à altura do peito (DAP ≥ 4,8cm) e aferidas as coordenadas (x e y) de localização e projeção horizontal da copa.

A densidade é obtida através do número de indivíduos que interceptaram as linhas de inventário em cada parcela P1 e P2.

Além das árvores, também são mapeadas as áreas de clareira e de bambu que interceptam essas linhas. 

De acordo com a arquitetura, os indivíduos amostrados são classificados em árvores do futuro, do presente e do passado (Oldeman 1978) utilizando-se os critérios propostos por Torquebiau (1986), onde:

- árvores do futuro – são aquelas de copa estreita e profunda, com ramificação
monopodial (crescimento segundo o modelo arquitetural inicial, sem reiteração) e que ainda não atingiram seu potencial máximo de crescimento em altura;
- árvores do presente – copa ampla e rasa, com ramificação simpodial (apresentam
ampla reiteração) e que já atingiram seu crescimento máximo em altura;
- árvores do passado – apresentam sinais visíveis de fenecimento, como muitos galhos
secos e quebrados ou árvores mortas em pé.

As árvores do presente são subdivididas em 4 categorias, de acordo com o ponto de inversão morfológica, (PI=Hf/Ht) que corresponde à relação entre altura do fuste (Hf) e altura total (Ht), a superfície de inversão ecológica (SIE) de cada parcela, que é a metade da altura máxima dos indivíduos, excluindo-se os emergentes e o ponto de inversão ecológica (PIE) - metade da Ht de cada árvore (Torquebiau 1986). 

Assim, as árvores do presente são reclassificadas nas subcategorias 1A, 1B, 2A e 2B, onde: 

árvores baixas (1) são aquelas com Ht ≤ a SIE e altas (2) aquelas com Ht > SIE. 

Árvores de fuste alto (A) foram aquelas com PI > 0,5 e árvores de fuste baixo (B) apresentaram PI ≤ 0,5. 

Ao final, 4 categorias de árvores do presente são reconhecidas: 


1A árvores baixas de fuste alto; 

1B árvores baixas de fuste baixo; 

2A árvores altas de fuste alto; 

2B árvores altas de fuste baixo (Torquebiau 1986).

Finalmente as projeções das copas são mapeadas e, de acordo com as linhas de inventário e a união das copas das árvores de mesma categoria, são determinadas as seguintes ecounidades nas parcelas (Ver FIGURA):

Ecounidades em reorganização – formadas por clareiras;
Ecounidades em desenvolvimento – formadas por de árvores do futuro;
Ecounidades em equilíbrio – formadas por árvores do presente subdivididas em:
Ecounidades em equilíbrio 1A – árvores do presente 1A;
Ecounidades em equilíbrio 1B – árvores do presente 1B;
Ecounidades em equilíbrio 2A – árvores do presente 2A;
Ecounidades em equilíbrio 2B – árvores do presente 2B;
Ecounidades em degradação – formada por árvores do passado;
Ecounidade bambu – formada por grandes moitas de bambus.

As ecounidades são mapeadas com o uso do programa AutoCAD® de acordo
com as coordenadas das copas das árvores que interceptaram as linhas x e y.

Após o mapeamento das árvores que interceptam as linhas do inventário, é elaborado um mosaico parcial, onde que apresentam eventualmente algumas lacunas, entre as linhas, que são preenchidas segundo critérios estabelecidos por Torquebiau (1986).

A partir daí, é elaborado o mosaico definitivo, com a distinção entre as
ecounidades traçadas a partir das árvores que interceptaram as linhas.


Referencias

Botrel, R.T. 2007. Análise silvigênica em Floresta Estacional Semidecídua e em cerradão no Estado de São Paulo. . (Doutorado). Unicamp, Campinas, SP. Pp.211.

Engel, V.L. & Prado, P.I.K.L. 1992. Aspectos da silvigênese de uma Mata Pluvial Atlântica em Linhares, ES. Anais do II congresso nacional sobre essências nativas. Revista do Instituto Florestal 4: 163-168.

Hallé, F.; Oldeman, R.A.A. & Tomlinson, P.B. 1978. Tropical trees and forests: an
architectural analysis. Berlin: Sringer - Verlag, Pp 441.

Lescure, J.P. 1978. An architectural study of the vegetation's regeneration in French Guiana. Vegetatio 37:(1): 53-60.

Oldeman, R.A.A. 1974a. Ecotopes des arbres et gradients ecologiques verticaux en Foret
Guyanaise. Terre et la Vie, Revue d'Ecologie Appliquée 218: 487-520.
______. 1974b. L'architecture de la foret Guianaise. (Mémoires O.R.S.T.O.M. ). Paris:
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______. 1978. Architeture na energy exchange of dicotyledonous trees in the forest. Pp. 535- 560. In: Tomlinson, P.B. & Zimmermann, M.H. (Eds.). Tropical trees as living systems: University Press Cambridge.
______. 1983. Tropical rain forest, architecture, silvigenesis and diversity. Pp. 139-150. In: Sutton, S.L.; Whitmore, T.C. & Chadwick, A.C. (Eds.). Tropical rain forest ecology an management.
______. 1989. Dynamics in tropical rain forests. Pp. 4-21. In: Holm-Nielsen, L.B.; Nielsen, I.C. & Balslev, H. (Eds.). Tropical Forests: Botanical dynamics, speciation and diversity. London: Academic Press.
______. 1992. Architectural models, fractals and agroforestry design. Agriculture,
Ecosystems and Environment 41: 179-188.

Richards, P.W. 1996. The tropical rain forest: an ecological study. Cambridge: Cambridge University Press, Pp 575.

Whitmore, T.C. 1984. Tropical Rain Forest of the Far East. Oxford: Clarendon Press, Pp.

Aubreville, A. 1938. La forêt coloniale: les forêts de l’Afrique occidentale française. Ann. Acad. Sci. colon 9: 1-245.
